Nós somos muçulmanos, somos queer e nós existimos

Texto de Sonja Basha para o Wear Your Voice

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“Eu sou porque eu escolhi me libertar dos meus próprios medos”

Eu sou porque eu lamento. Eu sou porque eu existo.

Eu existo em um mundo que constantemente apaga a completude da minha identidade, em uma sociedade onde viver segura significa negar as minhas margens.

Eu sou muçulmana, eu sou queer, e eu existo

É junho. O mês mais sagrado do ano. O mês que eu celebro o Ramadã e me torno mais próxima de mim mesma e das minhas relações com meu espírito.

É junho, o que significa que é o mês do orgulho, e eu posso celebrar a mim mesma, meus relacionamento, e o meu amor. É junho, e eu estou de luto pelas perdas de vidas. Eu estou de luto em uma nação onde uma violenta retórica é usada para colocar-nos uns contra os outros, que me coloca contra mim mesma. Se em algum momento nós precisássemos de uma análise interseccional do mundo, o momento é agora.

Na manhã de domingo, dia 12 de junho, eu dormi depois de um voo noturno de Brooklyn até Seattle. Eu passei uma semana mágica celebrando o pré-orgulho de Brooklyn recheado de festas dançantes rodeada pela beleza e estilo de outras pessoas queer negras e marrons. Dançando até as 4 da manhã ao som de deep house, funk e cumbia, minha alma se sentiu rejuvenescida e aberta para celebrar a minha comunidade naquele clube. Eu passei a semana dando boas vindas ao Ramadã, e me conectando com outros muçulmanos queer da Universidade de Nova York. Eu descansei em paz e acordando sabendo que eu tinha uma comunidade, me sentindo afirmada, e segura de volta ao conforto da minha parceira e da minha família. Então, eu abri uma mensagem da minha irmã. Ela dizia “Eu não consigo entender como você está mas eu estarei sempre do seu lado… Você merece um mundo livre de julgamento e livre de males”. Meu coração parou, e eu imediatamente soube que uma tragédia fora de medidas tinha acontecido.

Lágrimas desceram o meu rosto quando mais mensagens, mais notificações, e mais horríveis notícias voaram pelo meu telefone. Lágrimas continuaram a descer o meu rosto quando ondas de sofrimento me encheram com as notícias e informações sobre as vítimas do tiroteio de Orlando. Será que foi homofobia internalizada e “terrorismo corporal” cometidos por um perpetuador do ódio próprio e da intolerância? Foi uma doença mental profundamente enraizada na obsessão do nosso país por armas? Eu me recuso a permitir que a narrativa do assassino seja centrada de maneira que a realidade da nossa comunidade seja apagada de sua própria história.

Através do horror, eu estou de pé e forte com minha comunidade LGBTQ para combater mais ódio e ainda mais violência; Eu estou de pé aqui Alhamdulillah. Eu sou capaz de beber através da propaganda violenta da midia de massa e expandir e centrar a narrativa – derramando luz sobre as vítimas e às famílias QTPOC*. Através da tragédia, um movimento de solidariedade está crescendo para criar uma cultura de bem estar coletivo. Nós estamos apoiando uns aos outros para que sejamos vistos, para que sejamos ouvidos, e para demandar que a verdade seja conhecida. Nós estamos prontos para aqueles que escolhem lutar para nos derrubar, porque nós escolhemos nos levantar de mãos dadas. Para aqueles que estão tentando passar leis anti-LGBTQ. ara aqueles que escolheram fazer de muçulmanos americanos bodes expiatórios e culpá-los pelo terrorismo. ara aqueles que estão constantemente apagando as trans, pessoas de gênero não conformista e experiências latines, nós estamos prontos para falar contra a cultura que criou esse assassino e continua a oprimir os mais vulneráveis.

Eu vivo em uma visão global onde a violência é constante. Onde simplesmente existir no meu corpo como uma imigrante muçulmana genderqueer significa que eu estou continuamente combatendo olhares nocivos, o policiamento do meu coro, e ameaças perigosas. Para mim, simplesmente existir é resistir. Violência não me representa. Violência não nos representa. A comunidade e a cultura da violência está enraizada no poder do ódio e da discriminação. Uma mudança duradoura e responsabilidade da comunidade vem de compassivas, críticas e complexas visões de mundo.

Nós não iremos permitir que a tragédia nos dividam. Nós não podemos continuar a nos barrar do poder das nossas dinâmicas de beleza porque tememos ser vistos pelo que nós somos verdadeiramente.

Nós não estamos seguros e não tememos ser livres.

Enquanto nós estamos de luto e seguimos em frente: cada matéria que você lê, todas as notícias que você assiste, e toda a conversa que você terá, saiba que a comunidade LGBT e nossas famílias muçulmanas não estão separadas. Nós sofremos jundos. Não é simplesmente que eu existo, mas que nós co-existimos em um mundo centrado em supremacistas brancos, cristianismo dominante e narrativas conservadoras de violência que nos apaga. Nós somos muçulmanos, nós somos queer, nós existimos.

*Nota de tradução: QTPOC – Acrônimo que significa Queer and Trans People of Color (Pessoas queer e trans racializadas)

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Links relacionados

Matéria original (Em inglês): We are Muslim, We are Queer, and We Exist

Pelo menos 100 LGBTs são presos, torturados e humilhados no Azerbaijão

Que minha pequena voz alcance a sociedade: Uma mensagem de Aya Kamikawa

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