Onde nós estamos? A visibilidade LGBT+ nas produções cinematográficas do ano de 2016

A GLAAD (Gays & Lesbian Alliance Against Difamation) publicou a quinta edição do Relatório do Índice de Responsabilidade dos Estúdios revelando que somente 18,4% dos filmes lançados no ano de 2016 pelos maiores estúdios de Hollywood apresentaram personagens LGBT+, e menos da metade desses filmes teve personagens LGBT+ com mais de um minuto de cena.

O Relatório de Responsabilidade dos Estúdios da GLAAD mapeia a quantidade, qualidade e diversidade de lésbicas, gays, bissexuais, trans e queers nos filmes lançados pelos sete maiores estúdios, e é publicado anualmente desde 2013. Esse relatório tem como objetivo oferecer um guia para um aumento de uma representatividade LGBT+ mais leal, correta e inclusiva.

Para esse relatório, a GLAAD delimitou os seus estudos nos sete estúdios que tiveram a maior bilheteria em 2016 de acordo com o Box Office Mojo. São eles: 20th Century Fox, Lionsgate Entertainment, Paramout Pictures, Sony Pictures, Universal Pictures, The Walt Disney Studios e Warner Brothers. Ao total, foram analisados 125 filmes dessas produções.

Também foram analisadas 41 filmes lançados sob o selo de quatro estúdios menores filiados a esses grandes estúdios. São eles: Focus Features (Universal Pictures), Fox Searchlight (20th Century Fox), Roadside Attractions (Lionsgate Entertainment) e Sony Pictures Classic (Sony Pictures). Mas como as políticas de divulgação e marketing dessas subdivisões que são braços de filmes independentes e de arte são diferentes, eles foram considerados separadamente.

sem-tc3adtulo1

Para a análise de QUANTIDADE, cada filme foi analisado registrando a presença de personagens LGBT+, assim como a sua  identidade de gênero, sexualidade e raça. Em muitos casos foi necessário o uso de fontes externas (Declaração dos estúdios, diretores e roteiristas) para confirmar a existência de personagens LGBT+ nos filmes.

Dos 125 filmes analisados, somente 23 (18,4%) dos filmes apresentaram algum personagem LGBT+. Homens gays são os que mais tem visibilidade com 83% dos filmes analisados, lésbicas formam o segundo maior grupo sendo representadas em 35% dos filmes analisados, em seguida temos bissexuais (homens e mulheres) presentes em 13% do total e houve apenas uma personagem trans (0,7%) em todos os filmes analisados – All de Zoolander 2 (Paramount), interpretada por Benedict Cumberbatch e fortemente criticada pela comunidade trans.

Ao total foram contabilizados 70 personagens LGBT+, mas é importante lembrar que 14 personagens apareceram em apenas uma cena musical do filme  Popstar: Never Stop Never Stopping (Universal Pictures) o que acabou inflando os números. A cena em questão pode ser assistida abaixo.

Já no quesito QUALIDADE, cada personagem passou pelo Teste Vito Russo.

Inspirado pelo famoso teste de Bechdel, que analisa a maneira como personagens femininas são retratadas nas diversas narrativas, a GLAAD desenvolveu uma série de critérios para analisar como personagens LGBT+ são representados no cinema. Nomeado em homenagem ao historiador e co-fundador da GLAAD, Vito Russo, esse teste oferece uma guia para produtores criarem personagens LGBT+ multidimensionais, assim como critérios de análises da representatividade LGBT+. Para que um filme passe no teste, ele tem que seguir as seguintes três regras:

01. O filme contêm pelo menos um personagem que pode ser identificado como LGBT+.

02.Esse personagem não pode ser unicamente ou predominantemente definido pela sua orientação sexual ou identidade de gênero (i.e. eles incorporam os mesmos tipos de características únicas que são usadas para diferenciar um personagem cis-hétero de outro)

03. O personagem LGBT+ deve estar vinculado com a narrativa de tal forma que a sua remoção teria um efeito significativo no enredo, significando que eles não estão lá para simplesmente oferecer um comentário engraçado, criar uma autenticidade urbana ou (mais comumente) oferecer uma moral para a história. O personagem deve ter uma importância.

Sem título

Apesar de somente 39% (9 de 23) dos filmes que apresentavam algum personagem LGBT+ terem passado no teste Vito Russo, esse foi um leve aumento comparado com o ano de 2015, onde somente 36% (8 de 22) dos filmes passaram no teste. Isso nos mostra que, mesmo com o aumento de personagens LGBT+ no cinema, ainda estamos longe de uma representação ideal.

Raça e representatividade asiática

Mesmo com o grande sucesso de Moonlight: Sob a luz do luar (A24), ouve uma queda na representatividade de pessoas LGBT+ racializadas. Em 2016 somente 20% dos personagens eram de minorias raciais, uma queda significativa comparada com os 25,5% de 2015 e os 32,1% de 2014.

Dos 70 personagens encontrados: 48 (69%) eram brancos, 9 (13%) eram negros, 8 (11%) eram não-humanos (animais e objetos antropomorfizados), 4 (6%) eram asiáticos ou nativo das ilhas do pacífico e 1 (1%) era latino.

Todos esses dados mostram como que a indústria cinematográfica está muito aquém de outras mídias quando se trata de representatividade LGBT+, tanto quantitativamente como qualitativamente. Produtores e roteiristas precisam aprender que não é necessário ofender um grupo para agradar outros, principalmente quando tais atitudes repercutem na marginalização, abuso e violência contra pessoas LGBT+ em comédias como Tirando o Atraso (Lionsgate) e Um espião e meio (Universal Pictures).

Roteiristas e produtores também precisam entender melhor o conceito de diversidade que existe dentro da comunidade LGBT+. Homens cis brancos ainda formam o grupo mais representado nas narrativas cinematográficas, e pessoas racializadas comumente se tornam arquétipos com a obrigação de vocalizar comunidades inteiras em apenas cinco minutos ou menos. O sucesso de filmes como Moonlight: Sob a luz do luar (A24), Na cadência do amor (London Film Productions) e Pariah (Focus Features) revelam como o público está sedento por essas histórias.

Abaixo, deixamos os filmes de 2016 analisados pela GLAAD que apresentavam um personagem asiático LGBT+.

Doris, Redescobrindo o Amor (Roadside Atractions)

Essa comédia acompanha Doris, uma funcionária de escritório em seus 60 anos cuja mãe faleceu recentemente, enquanto a sua vida muda drasticamente ao se apaixonar por um colega de trabalho mais jovem que ela. Um dos colegas de trabalho dela é Nasir (Interpretado pelo ator paquistanês Kumail Nanjiani) é um homem abertamente gay. Apesar de Nasir não ser um personagem muito importante para o filme, ele serve como porta-voz dos colegas de escritório de Doris. Na maioria das vezes ele age como a voz da rasão comparado com as fantasias selvagens e excêntricas de Doris. Posteriormente, o úblico conhece Keith, o namorado de Nasir, durante um jantar de festividades.

O filme também faz uma série de piadas sobre a comunidade LGBT+, afirmando “quantas pessoas queer um hipster de Brooklyn conhece”, como um dos colegas de trabalho que é membro de um grupo de tricô LGBT+ e uma pessoa que diz ser professora em uma “pré-escola gay de Park Slope”. Uma inclusão de personagens que são claramente estabelecidos como LGBT+, mas cuja a história não rode somente sobre a sua identidade é algo que nós esperamos ver mais para frente.

Star Trek: Sem Fronteiras (Paramount Pictures)

O  terceiro filme do reboot da série Star Trek, Star Trek: Sem Fronteiras apresenta o marido e a filha do tenente Hikaru Sulu (John Cho). Quando a USS Enterprise faz uma parada na estação espacial de Yorktown, Sulu se reune com o seu marido, Ben (Doug Jung), e sua filha. Os dois pode ser vistos em outras cenas durante o filme: correndo para o abrigo quando o vilão está lançando ataques sobre a cidade, e Sulu e Ben são vistos juntos novamente na festa de aniversário do capitão Kirk.

A inclusão de um personagem gay como parte dos personagens centrais de um dos principais lançamentos de um estúdio foi um grande passo. Filmes de gênero como Star Trek, que existem em um universo controlado pela imaginação de seus criadores, tem a oportunidade de criar sociedades únicas que não se prendem às tendências do mundo real. Pelo simples ato de incluir minorias e tratá-las com a mesma nuances que outros personagens, esses filmes conseguem tornar-se um espelho para a nossa sociedade e desafiar ideias pré-concebidas do que é normal. Nós esperamos que a história de Sulu seja mais explorada nas próximas sequências. Esse foi o único filme distribuído por uma grande produtora a ser nominado ao 28º Prêmio Midiático Anual da GLAAD.

A criada (Magnolia Pictures)

A criada, é um triller psicológico que conta a história de amor entre uma criada coreana e uma nobre japonesa. A criada foi indicada para o prêmio midiático da GLAAD, e foi o filme com maior bilheteria do ano para a Magnolia Pictures.

Spa Night (Strand Releasing)

Nominado para o Prêmio Midiático da GLAAD, Spa Night conta a história de um jovem coreano-americano gay tentando lidar com as pressões dos seus pais e explorar a sua própria sexualidade.

________________________

Links relacionados

Site oficial da GLAAD (Em inglês): Gay & Lesbian Alliance Against Defamation

Relatório completo (Em inglês): 2017 GLAAD Studio Responsibility Index

A importância da presença asiática no movimento LGBT+: Integra da fala de Alex Tso na Câmara Municipal de São Paulo

Representação trans e a grande estréia de Ian Alexander em OA

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: